segunda-feira, 20 de julho de 2009

(fascículo 12)

As embarcações Árabes[1]

Os muçulmanos islamistas trouxeram ao ocidente todo o conhecimento relativo à ciência náutica, à astronomia, e até, à cartografia. Servindo de elo de transmissão entre as civilizações orientais e os europeus, e em particular os povos peninsulares, foi através dos contactos tidos aquando da ocupação islâmica de grande parte da Ibéria, e de boa parte de França, que foram legados ao mundo europeu muitos conhecimentos na área marítima ,entre outras. Em particular a construção de embarcações revestidas com uma espécie de betume(o lapes) que lhes conferia uma durabilidade enorme(quase um século comparado com os poucos dez anos da duração de uma embarcação portuguesa ao tempo)[2] .Usaram também para revestir as embarcações pelarias, de que se abasteciam em todo o Magreb.

A «Coca de Mataró»: uma embarcação genuinamente do mediterrâneo [3]

Os mercadores árabes chegaram a Alexandria, vindos do mar Vermelho. E quando se apossaram da Siria (636 dC) tomaram conhecimento com o saber náutico grego. Traduziram Ptolomeu, fundando em Bagdad a «Casa da Sabedoria»,onde traduziram os grandes filósofos e a ciência grega acumulada. Mas depressa desenvolveram estudos que lhes proporcionaram um conhecimento náutico que se viria a difundir pela África islâmica e pelo Índico, muito superior ao conhecimento náutico europeu, da época. Com a conquista do sul hispânico, os muçulmanos trouxeram, no séc. VIII e IX, o conhecimento sobre o astrolábio (planisférico), que se veio a difundir na Europa através dos centros monásticos a partir do séc. X , até ao séc. XII, onde se completou um conhecimento preciso sobre este precioso instrumento náutico. Que foi sendo desenvolvido e aperfeiçoado até se chegar ao astrolábio utilizado por Diogo de Azambuja, em 1481, e depois por Bartolomeu Dias (1487-1488).


O astrolábio Planisférico (1583)


Os muçulmanos fizeram como que a recolha de toda a tecnologia naval do passado mediterrânico, estabelecendo arsenais pelos mais diversos locais : Cádiz, Tiro ,Alexandria, Rawda, Cartagena, Tripoli etc. etc, onde foram construídos milhares de unidades dos mais diversos portes, e para os mais diversos fins.

Introduziram a vela latina triangular (no mediterrâneo), ou a bastarda, no golfo pérsico e Mar Vermelho, que permitiram o bolinar avançando-se contra vento.




Estudo da vela Latina por Miguel de Rhodes [4]

Também com eles nasceu a técnica de «primeiro o esqueleto e só depois o casco».De um achado de uma embarcação muçulmana encontrada perto da ilha de Rhodes, ressalta um navio com 75 metros(?) de comprimento, com uma boca de 5,2 metros. O casco era de pinho, mas a quilha era feita de ulmeiro, por isso muito mais resistente. Tinha dois mastros onde envergavam duas velas latinas.



O Baghlal

Com os seus pangaios, os árabes dominaram todo o comércio que trazia as especiarias do Índico para a Europa, até que os portugueses contornando o Cabo, e assim chegando à Índia , se apoderaram das riquezas naturais daquela região longínqua, trazendo-as nos seus navios em quantidades até ali inimagináveis para a Europa. Talvez se possa considerar este o primeiro passo histórico para a Globalização.
Até ali só os pangaios faziam já comércio regular entre a costa oriental de África e a Índia, e até com a China, pois eram já conhecidas as monções. As quais naquela zona do globo, no inverno soprando de nordeste, possibilitando a travessia da Índia para a África; no verão, a monção soprando de sudoeste levava com facilidade os pangaios da Arábia, às Índias. Assim, os árabes, eram os senhores do Indico, nele aprendendo a navegação pela altura dos astros. Conheciam a bússola(importada dos chineses) e sabiam a importância da cartografia de que faziam segredo.
Denotavam pouco interesse em descobrir novas terras ,talvez cientes que a importância era explorar(comercialmente) «o conhecido».

«Pangaio» árabe do Índico
Há imensos tipos de« pangaios» (identificam-se mais de 200 tipos!) com nomenclatura diferente( sendo um dos tipos mais conhecidos, o dhow, mas e também, o boom e o baghlal -40 m de comprimento e dois mastros-, o zaruq etc.),definindo o tipo da embarcação na tipologia geral.Os «pagaios» eram já construídos com madeira de teka. O costado era liso,sendo as pranchas que o formam ligadas, não com pregaria, mas com fibra de coco, calafetando o espaço entre pranchas. Só no final do séc XV, os árabes começariam a usar prego metálico.

O ZaruK

Estas embarcações, para lá de usarem em comum, a vela triangular, latina, apareceram a partir do século XIII (1240?) com o leme central de cadaste substituindo o leme lateral ao bordo, o que lhes permitiu uma notória superioridade na capacidade de manter o rumo.


O Dhow do Índico

Os navegadores árabes tinham já apreciáveis conhecimentos de astronomia,usando para medição da altura de um astro, um instrumento chamado KAMAL.


Navegador utilizando o KAMAL

Era uma espécie de tábua com um cordel no centro, sendo este dividido em marcações (nós)..Colocada de modo a que a parte inferior coincidisse com o horizonte, e a superior com o astro de que se pretendia medir «a altura», o numero de nós (dedos) (distância entre a tábua e o rosto do navegante) dava a latitude.
Usavam, ainda, um método muito expedito com a estrela Alfa do Cruzeiro do Sul..Que era esticarem o braço direito,mão na vertical, fazendo com que o dedo mínimo ficasse sobre o horizonte. A altura do astro era dado pelo dedo da mão aberta, que coincidisse(alinhasse) com ele.
De qualquer modo no séc X os árabes teriam já saber para trabalhar com o compasso magnético e até com o astrolábio, conhecimento vindo dos contactos com os chineses.


Usando o Astrolábio


[1] Entre outros refere-se aqui o livro do arq Quirino da Fonseca «A Caravela Portuguesa, que estuda intensamente as embarcações árabes.
[2] Segundo Quirino da Fonseca in «Caravela Portuguesa»
[3] Ou coga
[4] Miguel de Rhodes serviu nos barcos venezianos entre 1401e 1445;Elaborou um extraordinário compêndio de 440 páginas, onde expôs conceitos de matemática indispensáveis á navegação, técnica de construção naval, e regras de navegação. Os seus escritos estabelecem os rumos entre os principais portos dói mediterrâneo ,explica técnicas de abatimento e maneiras de levar a embarcação ao rumo pretendido, e inclui tabelas de maré, correntes e ventos,para se navegar em segurança.

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